“Vivemos em um mundo onde a realidade é substituída por suas representações.”
Jean Baudrillard (1929-2007)
Meu filho comprou um Toyota Yaris “híbrido”. “Híbrido” significa que não é carne nem peixe; é uma espécie de “meio-termo”, quase uma quimera… Porém, por ser da Toyota, minha opinião foi neutra, ou seja, não me opus à escolha. A Toyota é como Brandy Constantino: tem uma fama que vem de longe…
Além disso, o motor a gasolina deste carro (Toyota Yaris “híbrido”) tem 1.500 centímetros cúbicos (ou 1,5 litro), embora conte apenas com três cilindros em linha. O novo Toyota Yaris “híbrido”, que será comercializado ainda este ano em Portugal, também tem um motor a gasolina de 1.500 centímetros cúbicos, mas com quatro cilindros.
Portanto, não considero este “híbrido” da Toyota um carro elétrico: trata-se de um carro com motor a combustão a gasolina de 1.500 centímetros cúbicos, ainda que com assistência elétrica.
Carro elétrico é outra coisa. É um iPad com rodas.
Não consigo entender as pessoas que compram carros elétricos. Essas pessoas estão fora da minha capacidade de compreensão. Eu devo ser muito burro, porque não as compreendo. Não sei como é possível alguém gastar uma fortuna na compra de um carro novo apenas para seguir a moda. O carro elétrico está na moda… e, pronto, lá se vão 40 mil euros pela janela fora…!
O novo “iPad com rodas” da BMW tem bancos aquecidos, mas é preciso pagar 18 euros por mês para usufruir do aquecimento do assento. Se te esqueceres de pagar os 18 euros mensais, a BMW desativa remotamente o aquecimento dos bancos através do sistema instalado no veículo.
Nos novos modelos dos “iPads com rodas” da Tesla, quase tudo o que aparece no ecrã do sistema passa a ter um custo mensal. Ou seja, compras um “iPad com rodas” na forma de automóvel, pagas e pronto, mas o carro não é totalmente teu: continuas a pagar mensalmente pelo software e pela utilização de várias funcionalidades. O “iPad com rodas” tem cerca de um milhão de linhas de código (software) que servem para manter o controlo do fabricante sobre um produto que já pagaste a peso de ouro…
Os novos “iPads com rodas” significam o fim dos mecânicos de bairro, aqueles que resolviam pequenos problemas do dia a dia. Qualquer avaria num “iPad com rodas” e serás obrigado a ir a um concessionário, que te cobrará “os olhos da cara” (isto é uma metonímia) por mexer em algumas linhas de código de software sob autorização do fabricante. Nos diagnósticos e reparações, acabou a concorrência. Deixa de fazer sentido procurar o melhor ou o mais barato mecânico: é a marca que impõe o preço e nos faz “chorar baba e ranho” (outra metonímia).
E depois, com o advento dos novos “iPads com rodas”, surge o “kill switch”. Por exemplo, se excederes o limite máximo de velocidade permitido, pimba! desativam o veículo remotamente. Ficas parado na estrada à espera do reboque.
Compraste um “iPad com rodas”, convencido de que ele era teu, mas a verdade é que não é propriamente tua propriedade.
E não há um mercado de automóveis usados que valha a pena… os “iPads”, quando as baterias chegam ao fim da vida útil, acabam por ser descartados — porque a substituição da bateria custa quase tanto quanto um “iPad” novo.
Pagaste uma fortuna por um tipo de “aluguer vitalício” de um bem que te pode ser retirado a qualquer momento. E os políticos de esquerda (por exemplo, o Carlos Moedas) mantêm-se calados, à espera de que o modelo das “cidades de 15 minutos” se instale definitivamente…
Por Orlando Braga.
Originalmente publicado em 24 de junho de 2026, no website do autor.
Nota da editoria:
Artigo minimamente modificado. A versão original foi escrita em português de Portugal, para acessá-la clique aqui. ![]()
A imagem da capa é um recorte da obra: “Gas” (1940), de Edward Hopper (1882-1967). ![]()




























